Caixa de brinquedos 01 - Arte & Produto

Atualizado: Jun 8




Durante cinco anos da minha vida trabalhei efetivamente como designer de

produto, mais especificamente de produtos promocionais. Nunca foi meu

plano explorar essa área que, pra falar a verdade, eu nem suspeitava que

existia. Meu objetivo é, além de registrar memórias sobre um momento

importante da minha existência neste planeta, refletir sobre observações

interessantes que fiz ao longo dessa pequena jornada. Tudo o que é escrito

aqui corresponde apenas à minha opinião baseada em experiências

pessoais; logo, não existem verdades absolutas.


O início da minha jornada foi completamente aleatório e recheado de

frustrações consecutivas. Antes de entrar na faculdade, eu só queria

desenhar e tocar guitarra. Nada mais importava. Por falta de pesquisa,

confesso, acabei entrando no curso de Publicidade Propaganda e não

demorou muito para eu me frustrar completamente.

Migrei para Design Gráfico, pois achei que era o mais próximo de artes, e fui

até o fim. Apesar de ter concluído e aprendido muitas coisas importantes, não

era bem o que eu imaginava para minha vida, e, como vivemos num mundo

capitalista com competições acirradas, tive que arrumar um emprego, com

urgência, logo no meu primeiro ano de faculdade. Passei por um estágio

numa agência especializada em criar identidade visual para clínicas

odontológicas, mas não gostei e saí em três meses. Me inscrevi em seguida

para uma vaga de design que chamava pretendentes com apenas os

seguintes dizeres: Vaga para designer. O site da empresa era, sem querer


ofender, primitivo, e me candidatei sem entender muito o que faziam. Apenas

depois de concluir a prova-teste e chegar na entrevista final é que descobri

que o complemento “de Produto” estava oculto no anúncio da vaga. Para meu

espanto fui contratado, mesmo com quase nenhum conhecimento na área.

Aparentemente, ilustrar foi o grande diferencial.


Fiz toda essa volta apenas para situar que, neste mundo, um cara que

apenas sonha em ser artista pode cair de paraquedas de uma altura

vertiginosamente alta, num mercado muito restrito e competitivo de produtos

promocionais, e isso não pode ser previsto de forma alguma.


Coloque-se na seguinte situação: você adora desenhar e se expressar, não

tem quase nenhum alcance, ainda está em começo de carreira e gostaria que

suas criações chegassem a mais e mais pessoas. De repente você tem a

oportunidade de desenhar coleções de brinquedos para grandes empresas e,

assim, seu trabalho entrará em contato com milhões de pessoas. Parece

lindo, não é mesmo? Mas existe um fator decisivo. Nenhum brinquedo será

baseado em personagens seus, pois serão usadas apenas licenças famosas,

e ninguém saberá quem desenhou tais produtos. Continua achando lindo?

Eu tenho completa consciência de que a impessoalidade está mais presente

do que deveria em nosso mundo, onde empresas e personagens são mais

importantes que pessoas, e quem realmente faz as coisas acontecerem e

funcionarem está sempre nas sombras. Contudo, acredite: eu não estou

reclamando! É um baita privilégio poder trabalhar desenhando para grandes

marcas. Tive a honra desenhar coleções de Barbie, Homem-Aranha, Scooby

Doo, entre muitas outras, e isso é incrível, mas essas marcas não têm

relação alguma com minha identidade, o que é muito significativo pra alguém

que só queria fazer arte.


Ao longo do tempo eu enxergava o quanto me fazia falta dizer simplesmente

o que eu queria, mesmo que não fosse mudar a vida de ninguém. Isso

infelizmente estava ficando de lado devido ao excesso de trabalho. Foi com

essa experiência que eu notei também que alcance numérico é uma grande

ilusão. Aqueles números colossais de vendas não me retribuíam com

nenhuma resposta humana, nem com um simples sorriso. O único feedback

que números podem prover é com outros números, mas o que eu quero vale

muito mais que isso.


Por conta de um brinquedo demorar de quatro a doze meses para existir,

devido aos processos de fabricação, era muito raro eu presenciar algum tipo

de feedback, mas algumas vezes me deparava com vídeos no YouTube em

que crianças mostravam o quanto gostaram, ou nem tanto, de um produto

que desenhei, e isso me proporcionava pequenos momentos de satisfação

que contradiziam a impessoalidade dos números: “É isso! Que incrível! Não

achei que meu trabalho pudesse fazer crianças sorrirem! Outras crianças

sorriam? Mas então isso é arte? O que é arte? Eu estou fazendo arte?

Produto é arte? Por que é importante pra mim ter o rótulo de artista?”





Durante o processo de concepção de um produto, muitas coisas acontecem.

Pretendo falar detalhadamente sobre isso em outro momento, mas para esta

discussão em específico é importante enfatizar algumas características muito

interessantes. É importante salientar também que, quando me refiro a

produto, estou falando de objetos 3D, normalmente de plástico e

normalmente brinquedos, não abrangendo o total significado da palavra.


Um projeto de produto possui muitos pais e mães, pois não é algo que se faz

sozinho. Mesmo que o conceito nasça de uma única pessoa, é

completamente injusto se autointitular autor num processo que, para existir,

passa por tantas áreas diferentes nas mãos de tantas pessoas. Ter vários

autores e colaboradores descaracteriza a arte?


Um projeto de produto passa muitas vezes por alterações vindas do próprio

cliente, justificadas com argumentos duvidosos ou por gostos pessoais.

Sofrer interferência de terceiros, contra sua vontade, desqualifica a arte?


Um projeto de produto, na maioria das vezes, carrega o nome de uma

empresa que não é sua e traz personagens que não são seus, mesmo que

você tenha decidido o conceito e as funcionalidades originais dele. Usar a

chancela de uma grande marca desqualifica a arte?


Um produto nasce com diversos objetivos. Para o cliente, significa aumento

nas vendas. Para o fabricante, significa lucro. Para a criança que recebeu,

significa alegria e satisfação. Para mim, um produto sempre nascia com o

objetivo de ter sentido, contar alguma história, ter excelência em sua função

de divertir e levar com ele um pouco da minha identidade. Não atingir minhas

expectativas desqualifica a arte?


Quando o receptor final entra em contato com o produto, talvez ele veja

apenas um brinquedo, um objeto de plástico que usa a máscara de uma

marca conhecida. Pode ser que o cliente final crie memórias afetivas sobre o

produto devido à situação em que estava no momento, como o aniversário de

um filho, por exemplo. Ou pode ser que ele simplesmente jogue fora depois


de um tempo. Os engenheiros vão lembrar do quanto foi árduo fazer a asinha

da boneca funcionar corretamente e lembrar de todas as vezes que tiveram

retrabalhos. O vendedor vai lembrar do quanto foi difícil, ou fácil demais,

convencer o cliente de que aquele conceito seria o melhor caminho para o

produto e assim por diante. Eu, em específico, vou lembrar de todas as

dezenas de conceitos que foram rabiscados até chegar na versão final, todas

as alterações que fiz, mesmo não concordando, todas as brigas que comprei

para que conseguir manter as qualidades primordiais do produto, as decisões

para manter o brinquedo seguro e bonito, o pouco de mim que consegui

adicionar e a satisfação de ver no mundo real, em três dimensões, o que era

apenas um conceito. Se isso não é arte, o que é isso?


Quando comparamos arte e produto, pensamos logo que são coisas

completamente distintas e para muitos arte será sempre um conceito

superior. Se formos até a raiz da palavra, a arte também é um produto, pois é

resultado de estudo, experiências, gostos e reflexões. Se considerarmos que

arte é algo exclusivo e artesanal e perderia o sentido se produzido em massa,

todo o meio digital estaria desqualificado de uma vez, por exemplo, e eu não

consigo achar nenhum argumento que sustente essa ideia. A discussão sobre

o que é arte ou não, a meu ver, parece uma forma de elitizar o que deveria

ser uma convenção social. Afinal, goste ou não, para fechar um mísero

arquivo de um cartão de visitas é solicitado que “enviemos a arte” e para dar

visibilidade para um hobby, como ilustrações pessoais, é preciso tratá-las e

divulgá-las como um produto de mercado.


Sendo assim, posso finalmente concluir que arte é tudo o que nasce da

subjetividade humana com o propósito de ser arte e basta uma única pessoa

para legitimá-la. Se eu digo que algo é arte e alguém concorda, pronto. Está


validado. E toda essa explicação significa, basicamente, que não importa o

que é arte.


Depois de cinco anos eu enxerguei que, apesar de existirem momentos de

satisfação, trabalhar com produtos num mercado acirrado e competitivo como

o promocional não era exatamente o que eu queria. Mesmo tendo orgulho de

diversos projetos e de diversas decisões que tomei ao longo dessa jornada, o

artista que eu queria ser não estava ali. O artista que eu queria ser nem

existia. O artista que eu tanto queria ser nunca vai existir, pois, se não

importa o que é arte, a única coisa que me importa é o que eu quero fazer.





© 2020 Alexandre Otranto Esquitini. Todos os direitos reservados. Tecnologia Wix.com

  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • Spotify - Círculo Branco