Caixa de brinquedos 01 - Arte & Produto




Durante cinco anos da minha vida eu trabalhei efetivamente como designer de produto, mais especificamente, de produtos promocionais. Nunca foi meu plano explorar essa área que, pra falar a verdade, eu nem suspeitava que existia. Meu objetivo aqui é, além de registrar memórias sobre um momento importante da minha existência neste planeta, refletir sobre observações interessantes que fiz ao longo desta pequena jornada. Tudo o que é escrito aqui corresponde apenas a minha opinião baseada em experiências pessoais, logo, não existem verdades absolutas.


O início da minha jornada foi completamente aleatório e recheado de frustrações consecutivas. Antes de adentrar na faculdade, eu só queria desenhar e tocar guitarra. Nada mais importava. Por falta de pesquisa, confesso, acabei entrando no curso de Publicidade Propaganda e não demorou muito para eu me frustrar completamente. Migrei para Design gráfico, pois achei que era o mais próximo de artes e fui até o fim. Apesar de eu ter concluído e aprendido muitas coisas importantes, não era bem o que eu imaginava para minha vida, e como vivemos num mundo capitalista com competições acirradas, tive que arrumar um emprego, com urgência, logo no meu primeiro ano de faculdade. Passei por um estágio numa agência especializada em criar identidade visual para clínicas odontológicas, mas não gostei e saí em três meses. Me inscrevi em seguida para uma vaga de design que chamava pretendentes com apenas os seguintes dizeres: Vaga para designer. O site da empresa era, sem querer ofender, primitivo, e me candidatei sem entender muito o que faziam. Apenas depois de concluir a prova teste e chegar na entrevista final é que descobri que o complemento "de Produto" estava oculto no anúncio da vaga. Para meu espanto fui contratado, mesmo com quase nenhum conhecimento na área. Aparentemente, ilustrar foi o grande diferencial.


Fiz toda essa volta apenas para situar que, neste mundo, um cara que apenas sonha em ser artista, pode cair de paraquedas de uma altura vertiginosamente alta, num mercado muito restrito e competitivo de produtos promocionais e isso não pode ser previsto de forma alguma.


Coloque-se na seguinte situação: Você adora desenhar e se expressar, não tem quase nenhum alcance, ainda está em começo de carreira e gostaria que suas criações chegassem a mais e mais pessoas. De repente você tem a oportunidade de desenhar coleções de brinquedos para grandes empresas e, assim, seu trabalho entrará em contato com milhões de pessoas. Parece lindo não é mesmo? Mas existe um fator decisivo. Nenhum brinquedo será baseado em personagens seus, pois serão usados apenas licenças famosas e ninguém saberá quem desenhou tais produtos. Continua achando lindo? Eu tenho completa consciência de que a impessoalidade está mais presente do que deveria em nosso mundo, onde empresas e personagens são mais importantes que pessoas, e quem realmente faz as coisas acontecerem e funcionarem ,está sempre nas sombras. Mas acredite, eu não estou reclamando! É um baita privilégio poder trabalhar desenhando para grandes marcas. Eu tive a honra desenhar coleções de Barbie, Homem Aranha, Scooby Doo, dentre muitas outras e isso é incrível, mas essas marcas não tem relação alguma com minha identidade e isso é muito significativo pra alguém que só queria fazer arte.


Ao longo do tempo eu enxergava o quanto me fazia falta dizer simplesmente o que eu queria, mesmo que não fosse mudar a vida de ninguém e isso infelizmente estava ficando de lado devido ao excesso de trabalho. Foi com essa experiencia que eu notei também que alcance numérico é uma grande ilusão. Aqueles números colossais de vendas não me retribuíam com nenhuma resposta humana, nem com um simples sorriso. O único feedback que números podem prover é com outros números, mas o que eu quero vale muito mais que isso.


Por conta de um brinquedo demorar de quatro a doze meses para existir, devido aos processos de fabricação, era muito raro eu presenciar algum tipo de feedback, mas algumas vezes me deparava com vídeos no youtube, onde crianças mostravam o quanto gostaram, ou nem tanto, de um produto que desenhei, e isso me proporcionava pequenos momentos de satisfação que contradiziam a impessoalidade dos números: É isso! Que incrível! Não achei que meu trabalho pudesse fazer crianças sorrirem! Outras crianças sorriam? Mas então isso é arte? O que é arte? Eu estou fazendo arte? Produto é arte? Porque é importante pra mim ter o rótulo de artista?





Durante o processo de concepção de um produto muitas coisas acontecem e pretendo falar detalhadamente sobre isso em outro momento, mas para esta discussão em específico é importante enfatizar algumas características muito interessantes. É importante salientar também, que quando me refiro a produto, estou falando de objetos 3D, normalmente de plástico e normalmente brinquedos, não abrangendo ao total significado da palavra.


Um projeto de produto possui muitos pais e mães, pois não é algo que se faz sozinho. Mesmo que o conceito nasça de uma única pessoa, é completamente injusto se autointitular autor num processo, que para existir, passa por tantas áreas diferentes nas mãos de tantas pessoas. Ter vários autores e colaboradores, descaracteriza a arte?


Um projeto de produto passa muitas vezes por alterações vindas do próprio cliente, justificadas com argumentos duvidosos ou por gostos pessoais. Sofrer interferência de terceiros, contra sua vontade, desqualifica a arte?


Um projeto de produto, na maioria das vezes, carrega o nome de uma empresa que não é sua e trás personagens que não são seus, mesmo que você tenha decidido o conceito e as funcionalidades originais dele. Usar a chancela de uma grande marca, desqualifica a arte?


Um produto nasce com diversos objetivos. Para o cliente ele significa aumento nas vendas. Para o fabricante significa lucro. Para a criança que recebeu significa alegria e satisfação. Para mim, um produto sempre nascia com o objetivo de ter sentido, contar alguma história, ter excelência em sua função de divertir e levar com ele um pouco da minha identidade. Quando não atinge minhas expectativas, desqualifica a arte?


Quando o receptor final entra em contato com o produto talvez ele veja apenas um brinquedo, um objeto de plástico que usa a máscara de uma marca conhecida. Pode ser que o cliente final crie memórias afetivas sobre o produto devido a situação em que estava no momento, como o aniversário de um filho por exemplo. Ou pode ser que ele simplesmente jogue fora depois de um tempo. Os engenheiros vão lembrar do quanto foi árduo fazer a asinha da boneca funcionar corretamente e lembrar de todas as vezes que tiveram retrabalhos. O vendedor vai lembrar do quanto foi difícil, ou fácil demais, convencer o cliente de que aquele conceito seria o melhor caminho para o produto e assim por diante. Eu, em específico, vou lembrar de todas as dezenas de conceitos que foram rabiscados até chegar na versão final, todas as alterações que fiz, mesmo não concordando, todas as brigas que comprei para que eu conseguisse manter as qualidades primordiais do produto, as decisões para manter o brinquedo seguro e bonito, o pouco de mim que consegui adicionar e a satisfação de ver no mundo real, em três dimensões, o que era apenas um conceito. Se isso não é arte, o que é isso?


Quando comparamos arte e produto, pensamos logo que são coisas completamente distintas e para muitos a arte será sempre um conceito superior. Se formos até a raiz da palavra, a arte também é um produto, pois é resultado de estudo, experiências, gostos e reflexões. Se considerarmos que arte é algo exclusivo e artesanal e perderia o sentido se produzido em massa, todo o meio digital estaria desqualificado de uma vez por exemplo, e eu não consigo achar nenhum argumento que sustente essa ideia. A discussão sobre o que é arte ou não, ao meu ver, parece uma forma de elitizar o que deveria ser uma convenção social. Afinal, goste ou não, para fechar um mísero arquivo de um cartão de visitas é solicitado que "enviemos a arte" e para dar visibilidade para um hobbie, como ilustrações pessoais, é preciso tratá-las e divulgá-las como um produto de mercado.


Sendo assim, posso finalmente concluir, que arte é tudo o que nasce da subjetividade humana com o propósito de ser arte e basta uma única pessoa para legitimá-la. Se eu digo que algo é arte e alguém concorda, pronto, está validado. E toda essa explicação significa, basicamente, que não importa o que é arte.


Depois de cinco anos eu enxerguei que apesar de existirem momentos de satisfação, trabalhar com produtos num mercado acirrado e competitivo como o promocional, não era exatamente o que eu queria. Mesmo tendo orgulho de diversos projetos e de diversas decisões que tomei ao longo dessa jornada, o artista que eu queria ser não estava ali. O artista que eu queria ser nem existia. O artista que eu tanto queria ser nunca vai existir, pois se não importa o que é arte, a única coisa que me importa é o que eu quero fazer.





© 2020 Alexandre Otranto Esquitini.

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ps: faço café