Caixa de brinquedos 02 - Segurança é coisa de criança

Atualizado: Jun 8



Devido ao nosso sistema social e cultural, por algum motivo que eu deixo

para os sociólogos, historiadores e psicólogos explicarem, existe uma linha

que separa o que são coisas de crianças e coisas de adultos. Essa divisão

nem sempre é muito clara e racional, mas é normal termos largado algumas

experiências para trás simplesmente porque algum adulto nos disse que já

não tínhamos mais idade para aquilo. A grande maioria das pessoas para de

desenhar, para de jogar videogame, para de brincar, para de contar histórias

e até mesmo de tocar algum instrumento por conta dessa linha imaginária.

Por sorte temos bravos guerreiros e guerreiras que insistiram e perduraram

em seus sonhos. Assim, hoje eles embelezam e tornam nosso cenário


artístico e cultural incrível. Em relação aos brinquedos, se são exclusivamente

feitos para crianças, a atenção e a segurança devem ser redobradas.


Eu raramente pegava os brinquedos promocionais dos fast food quando

criança, mas depois de adulto, com o lançamento de algumas coleções que

me interessavam muito por conta da nostalgia, acabei por gastar mais

dinheiro do que devia nisso (bom, pelo menos posso me considerar um dos

tais bravos guerreiros que mencionei). Algumas vezes eu notava detalhes

que me pareciam imperfeições ou partes “mal resolvidas” no brinquedo e

pensava: “É promocional mesmo, deve ser algo pra baratear o produto”.

Apesar de o fator preço também estar relacionado com as ditas “falhas” do

produto, a segurança é um buraco muito mais embaixo, e apenas quando

passei a fazer parte do time de desenvolvimento de brinquedos é que

descobri todo esse universo extremamente rigoroso e intenso.


A segurança dos brinquedos, hoje, é o principal norte para que o produto

possa nascer. Pelo menos é como deveria ser. Em 80% dos projetos nos

quais trabalhei, alguma limitação ou mudança radical de conceito existiu para

que o brinquedo fosse o mais seguro possível para as crianças. Manuais de

qualidade extremamente rígidos eram a nossa Bíblia. Quando lidam com

crianças, os clientes têm um cuidado extremo e isso é excelente!


Em algum momento da vida alguém já deve ter notado, na mão de uma

criança, alguma boneca pequena com um dos braços fixo apontando para

cima, aparentemente, sem motivo algum. Pois bem, se existe num brinquedo

algum elemento cuja forma seja considerada crítica e represente risco de

entalar na garganta de uma criança, medidas devem ser tomadas. Nesse

exemplo, o braço é posicionado para cima num ângulo específico para gerar


uma passagem de ar, caso a criança tente engolir. Mas segurança é uma

reação em cadeia e, por isso, está longe de acabar. Agora temos um braço

para cima, que é perfeito para uma criança enfiar no ouvido ou morder, então

é necessário encontrar um material que seja rígido o suficiente para não gerar

partes pequenas caso seja mordido e manter sua função de possibilitar uma

passagem de ar. Mas o material deve também ser maleável o suficiente para

que não quebre numa torção e também não gere pontas agudas cortantes.

Fora isso, existem dezenas de testes para detectar diversos tipos de toxinas

e metais pesados que não devem existir em nenhum dos materiais da

boneca, seja na tinta ou nos diversos tipos de plásticos que a compõem. Para

dificultar as coisas, os laboratórios exigem uma redundância de proteção para

cada ponto crítico do brinquedo. O braço da boneca não pode cair, pois seria

uma peça engolível, portanto, além do cogumelo que faz o encaixe no corpo,

é necessário uma trava interna que desempenhe a mesma função caso a

primeira alternativa falhe por algum motivo.


Apesar de existirem centenas de exemplos e situações diferentes que

vivenciei, não quero transcrever a tal Bíblia aqui, mas acho que já dá pra

sentir quão tenso é trabalhar com brinquedos e quão próximos os setores de

design, engenharia e qualidade devem estar.





Em alguns casos, as restrições e regras soam paranoicas, mas isso porque

estamos numa época em que várias lições foram aprendidas na dor. Crianças

morreram para que fossem revistas algumas regras de fabricação. Existem

casos emblemáticos de brinquedos que geraram partes pequenas e

perfuraram o estômago de crianças, ou outros que as cegaram, entre muitos

tristes exemplos. Existe até um caso muito bizarro, acontecido no Brasil, em

que uma marca de chocolate lançou na Páscoa um brinquedo com formato

fálico e que vibrava. Gerou, obviamente, muita polêmica, e o mais irônico é

que nome da marca faz alusão a crianças.


Cinco árduos anos de trabalho com dezenas de situações e projetos

parecidos com o exemplo que dei me fizeram refletir e rever diversos

aspectos que normalmente não são discutidos por aí. Do mesmo modo em

que em algum momento da nossa infância se cria uma linha imaginária onde

algumas coisas passam a ser de crianças, também se passa uma linha

imaginária onde todo aquele cuidado extremo, quase paranoico, que tinham

com sua saúde e segurança simplesmente desaparecem. A partir de qual

momento as pessoas param de se preocupar com a existência do outro?

Será que aquele momento em que a criança deixa o brinquedo pra trás é o

momento em que ninguém mais vai ligar pra ela?


Antes de continuar, preciso deixar claro que meu objetivo não é atacar

nenhuma empresa especificamente, mas sim expor relações que existem aos

montes na nossa injusta realidade.


Por ter feito parte da liderança do setor de design, muitas vezes tive que

aprovar peças em diversas fábricas de segmentos diferentes. Era normal eu

me deparar com fábricas em situações deploráveis onde os empregadores


não se preocupavam minimamente com a saúde e segurança de seus

operários. Lembro-me de uma cena que me chocou muito numa fábrica de

pintura: trabalhadores inalavam tinta diariamente por não usar nenhum tipo

de proteção no rosto. Isso sem contar os murais onde existia uma contagem

de produção por pessoa que expunha o número de peças que cada um

deveria pintar num espaço de tempo absurdamente curto, sob risco de

punição caso não atingissem a meta. Estava marcado até o número de vezes

que podiam usar o banheiro.

Isso mostra que, além da linha que separa as coisas de crianças e adultos,

existe a linha social e econômica. Se o elemento que faz as pessoas se

preocuparem demais com as crianças é a vulnerabilidade, por que ninguém

liga nem um pouco para esses operários? Aliás, será que essa preocupação

é realmente com todas as crianças? Será que ligam para os filhos desses

operários quando os mantêm sob essas condições?


Foi a partir desse momento que comecei perceber as falhas na matrix,

enxergar as coisas com uma lente mais clara e entender como nossa

sociedade inverteu completamente seus valores. Quando as pessoas

aplaudiam o senhor meu chefe por ter conseguido economizar muito dinheiro

numa operação milionária que renderia muitos frutos para a empresa, elas

não estavam analisando que alguém pagaria por isso. A matemática é exata

e não existem milagres – o preço das coisas nunca é reduzido, ele é

simplesmente realocado, e na maioria dos casos é cobrado das pessoas mais

vulneráveis. Quem pagou caro por essa operação milionária foi o operário

que precisou produzir mais em menos tempo, com menos idas ao banheiro,

por um salário provavelmente miserável.


Quando a gente puxa um pequeno fiapo, a tendência é que ele vá se

desenrolando cada vez mais, então a análise não poderia acabar por aí.


Comecei a olhar pro meu próprio umbigo e perceber que não existe muita

escapatória desse sistema. Com muitas horas extras de trabalho, sob um

stress enorme, me irritando profundamente até com uma mosca, percebia

que eu também estava pagando o pato. Na verdade, em níveis diferentes, a

maioria das pessoas está. Quando investiguei mais a fundo, vi que minha

equipe inteira estava assim, a empresa inteira estava assim, e a sociedade

inteira está assim. Com os valores invertidos e em sofrimento contínuo, ainda

assim, as pessoas glorificam o excesso de trabalho e aplaudem quando

geram muito lucro para alguém que está enriquecendo infinitamente. Sabe

aquela sensação de culpa que você sente quando pede uma folga ou precisa

ir ao médico? Sabe aquela sensação de que, se simplesmente for embora no

seu horário correto, você está fazendo corpo mole e não se empenhando?

Sabe aquela sensação de extrema urgência em que qualquer mínimo atraso

pode resultar na explosão de todo o universo? Isso tudo é uma grande ilusão

e nem percebemos que estamos nos punindo à toa, participando de um

sistema adoecedor.


São centenas de situações que eu poderia descrever, mas não será preciso,

pois tenho certeza de que, não importa quem estiver lendo, lembrará de

situações parecidas em suas próprias vidas.


Depois de cinco anos, quando finalmente tomei a decisão de não participar

mais de empresas e corporações e ser autônomo, fui comemorar a liberdade

com minha esposa. Como uma forma de despedida, fomos a um dos fast

food para pegar os brinquedos de uma das últimas campanhas de que

participei e notamos mais uma ironia que estava bem de baixo do nosso

nariz. Tantas preocupações com a segurança das crianças e o que mais

poderia ser prejudicial a elas era o próprio lanche gordurento que vendiam.

Mais tarde, no mesmo dia, olhei as pilhas de cadernos de desenho no meu


armário e bateu aquele sentimento bom de nostalgia, pois, naquela época, eu

não precisava de mais nada. Um papel e um lápis estimulam muito mais a

imaginação de uma criança do que qualquer brinquedo. Aliás, qualquer

pedaço de pau vira uma ponte mágica ou um super-herói na mão de qualquer

criança. Com tudo isso, surgem algumas dúvidas: brinquedos são realmente

coisas de criança? Será que são simplesmente porque algum adulto disse

que era, provavelmente para vendê-los? Será que alguém se preocupa

realmente com as crianças? Será que alguém se preocupa com você na

mesma intensidade com que você se preocupa com o seu trabalho?

É muito difícil enxergar a matrix e é praticamente impossível sair dela, afinal,

quanto mais cavoucamos, mais camadas encontramos. O segredo é estar em

eterna desconstrução e procurar evoluir o nosso pensamento através do

simples exercício de nos perguntarmos por que fazemos o que fazemos e

qual é o impacto das nossas ações, por menor que seja, na vida dos outros.

Já adianto que não é uma tarefa fácil, pois, às vezes, quando parece que

estamos prestes a encontrar uma saída, damos de cara com um enorme

muro que, de longe, não podíamos enxergar. Mesmo encontrando algumas

falhas na matrix, algumas vezes, o contraditório é inevitável e indispensável,

pois sozinhos não temos força para mudar absolutamente nada e precisamos

garantir a nossa sobrevivência. Se cada indivíduo, ao traçar seus objetivos e

desejos, considerar o impacto de suas ações, mesmo que pequeno, o

coletivo poderá garantir que nenhuma criança precise mais ter medo de largar

seus brinquedos e crescer em segurança!








© 2020 Alexandre Otranto Esquitini.

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