Caixa de brinquedos 02 - Segurança é coisa de criança

Atualizado: 5 de Dez de 2019


Devido ao nossos sistema social e cultural, por algum motivo que eu deixo para os sociólogos, historiadores e psicólogos explicarem, existe uma linha que separa o que são coisas de crianças e coisas de adultos. Essa divisão nem sempre é muito clara e racional, mas é normal termos largado algumas experiências para trás, simplesmente porque algum adulto nos disse que já não tínhamos mais idade para aquilo. A grande maioria das pessoas para de desenhar, para de jogar vídeo game, para de brincar, para de contar histórias e até mesmo de tocar algum instrumento por conta dessa linha imaginária. Por sorte temos bravos guerreiros e guerreiras que insistiram e perduraram em seus sonhos e hoje embelezam e tornam nosso cenário artístico e cultural incrível. Em relação aos brinquedos, se são exclusivamente feito para crianças, a atenção e a segurança devem ser redobradas.


Eu raramente pegava os brinquedos promocionais dos fast foods quando criança, mas depois de adulto, com o lançamento de algumas coleções que me interessavam muito por conta da nostalgia, acabei por gastar mais dinheiro do que devia nisso (Bom, pelo menos posso me considerar um dos tais bravos guerreiros que mencionei). Algumas vezes eu notava detalhes que me pareciam imperfeições ou partes "mal resolvidas" no brinquedo e pensava: É promocional mesmo, deve ser algo pra baratear o produto. Apesar de o fator preço também estar relacionado com as ditas "falhas" do produto, a segurança, é um buraco muito mais embaixo e apenas quando eu passei a fazer parte do time de desenvolvimento de brinquedos é que descobri todo esse universo extremamente rigoroso e intenso.


A segurança dos brinquedos, hoje, é o principal norte para que o produto possa nascer. Pelo menos é como deveria ser. Em 80% dos projetos que trabalhei, alguma limitação ou mudança radical de conceito existiu para que o brinquedo fosse o mais seguro possível para as crianças. Manuais de qualidade extremamente rígidos eram a nossa Bíblia. Quando se trata de crianças, os clientes tem um cuidado extremo e isso é excelente!


Em algum momento da vida alguém já deve ter notado, na mão de uma criança, alguma boneca pequena em que um dos braços está fixo apontando para cima, aparentemente, sem motivo algum. Pois bem, quando existe num brinquedo algum elemento em que sua forma seja considerada crítica e representa risco de entalar na garganta de uma criança, medidas devem ser tomadas. No caso desse exemplo, o braço é posicionado para cima num ângulo específico para gerar uma passagem de ar, caso a criança tente engolir. Mas segurança é uma reação em cadeia e por isso, está longe de acabar. Agora temos um braço para cima, que é perfeito para uma criança enfiar no ouvido ou morder, então, é necessário encontrar um material que seja rígido o suficiente para não gerar partes pequenas, caso mordido e manter sua função de possibilitar uma passagem de ar. Mas o material deve também ser maleável o suficiente para que não quebre numa torção e também não gere pontas agudas cortantes. Fora isso, existem dezenas de testes para detectar diversos tipos de toxinas e metais pesados que não devem existir em nenhum dos materiais da boneca, seja na tinta ou nos diversos tipos de plásticos que a compõem. Para dificultar as coisas, os laboratórios exigem uma redundância de proteção para cada ponto crítico do brinquedo. O braço da boneca não pode cair, pois seria uma peça engolível, então, além do cogumelo que faz o encaixe no corpo, é necessário uma trava interna que faça a mesma função caso a primeira alternativa falhe por algum motivo.


Apesar de existirem centenas de exemplos e situações diferentes que vivenciei, não quero transcrever a tal Bíblia aqui, mas acho que já dá pra sentir o quão tenso é trabalhar com brinquedos e o quão próximo os setores de design, engenharia e qualidade devem estar.





Em alguns casos, as restrições e regras soam paranoicas, mas isso porque estamos numa época onde várias lições foram aprendidas na dor. Crianças morreram para que fossem revistas algumas regras de fabricação. Existem casos emblemáticos de brinquedos que geraram partes pequenas e perfuraram o estômago de crianças, ou outros que as cegaram, dentre muitos tristes exemplos. Existe até um caso muito bizarro, que aconteceu no Brasil, onde uma marca de chocolate lançou na Páscoa um brinquedo com formato fálico e que vibrava. Gerou, obviamente, muita polêmica e o mais irônico é que nome da marca faz alusão a crianças.


Cinco árduos anos de trabalho com dezenas de situações e projetos parecidos com o exemplo que dei, me fizeram refletir e rever sobre diversos aspectos que normalmente não são discutidos por aí. Do mesmo modo em que em algum momento da nossa infância cria-se uma linha imaginária onde algumas coisas passam a ser de crianças, também passa-se uma linha imaginária onde todo aquele cuidado extremo, quase paranoico que tinham com sua saúde e segurança simplesmente desaparecem. A partir de qual momento as pessoas param de se preocupar com a existência do outro? Será que naquele momento em que a criança deixa o brinquedo pra trás, é o momento onde ninguém mais vai ligar pra ela?


Antes de continuar, preciso deixar claro que meu objetivo não é atacar nenhuma empresa em específico, mas sim, expor relações que existem aos montes na nossa injusta realidade.


Por eu fazer parte da liderança do setor de design, muitas vezes tive que fazer aprovações de peças em diversas fábricas de segmentos diferentes. Era normal eu me deparar com fábricas em situações deploráveis onde os empregadores não se preocupavam a mínima com a saúde e segurança de seus operários. Lembro-me de uma cena que me chocou muito numa fábrica de pintura, onde trabalhadores estavam inalando tinta diariamente por não usar nenhum tipo de proteção no rosto. Isso sem contar os murais onde existia uma contagem de produção por pessoa que expunha o número de peças que cada um deveria pintar num espaço de tempo absurdamente curto, sob risco de punição caso não atingissem a meta. Estava marcado até o número de vezes que podiam usar o banheiro. Isso mostra que além da linha que separa as coisas de crianças e adultos, existe a linha social e econômica. Se o elemento que faz as pessoas se preocuparem demais com as crianças é a vulnerabilidade, porque ninguém liga a mínima para esses operários? Alias, será que essa preocupação é realmente com todas as crianças? Será que ligam para os filhos desses operários quando os mantém sob essas condições?


Foi a partir desse momento que comecei perceber as falhas na matrix, enxergar as coisas com uma lente mais clara e entender como nossa sociedade inverteu completamente seus valores. Quando as pessoas aplaudiam o senhor meu chefe por ter conseguido economizar muito dinheiro numa operação milionária, que renderia muitos frutos para a empresa, elas não estavam analisando que alguém estaria pagando por isso. A matemática é exata e não existem milagres, o preço das coisas nunca é reduzido, ele é simplesmente realocado e na maioria dos casos é para as pessoas mais vulneráveis. Quem pagou caro por essa operação milionária, foi o operário que teve que produzir mais em menos tempo, com menos idas ao banheiro, por um salário provavelmente miserável.


Quando a gente puxa um pequeno fiapo, a tendência é que ele vá se desenrolando cada vez mais, então, a análise não poderia acabar por aí. Comecei a olhar pro meu próprio umbigo e perceber que não existe muita escapatória desse sistema. Com muitas horas extras de trabalho, sob um stress enorme, onde até uma mosca me irritava profundamente, percebia que eu também estava pagando o pato e na verdade, em níveis diferentes, a maioria das pessoas está. Quando investiguei mais a fundo, vi que minha equipe inteira estava assim, a empresa inteira estava assim e a sociedade inteira está assim. Com os valores invertidos e em sofrimento continuo, ainda sim, as pessoas glorificam o excesso de trabalho e aplaudem quando geram muito lucro para alguém que esta enriquecendo infinitamente. Sabe aquela sensação de culpa que você sente quando pede uma folga ou precisa ir ao médico? Sabe aquela sensação de que se você simplesmente for embora no seu horário correto, você está fazendo corpo mole e não se empenhando? Sabe aquela sensação de extrema urgência onde qualquer mínimo atraso pode resultar na explosão de todo o universo? Isso tudo é uma grande ilusão e nem percebemos que estamos nos punindo a toa, participando de um sistema adoecedor.


São centenas de situações que eu poderia descrever, mas não será preciso, pois tenho certeza que não importa quem estiver lendo, lembrará de situações parecidas em suas próprias vidas.


Depois de cinco anos, quando eu finalmente tomei a decisão de não participar mais de empresas e corporações e agir de modo autônomo, fui comemorar a liberdade com minha esposa. Como uma forma de despedida, fomos a um dos fast foods para pegar os brinquedos de uma das últimas campanhas que participei e notamos mais uma ironia que estava bem de baixo dos nossos narizes. Tantas preocupações com a segurança das crianças e o que mais poderia ser prejudicial a elas era o próprio lanche gordurento que vendiam. Mais tarde, no mesmo dia, olhei as pilhas de cadernos de desenho no meu armário e bateu aquele sentimento bom de nostalgia, pois naquela época, eu não precisava de mais nada. Um papel e um lápis estimulam muito mais a imaginação de uma criança do que qualquer brinquedo. Alias, qualquer pedaço de pau vira uma ponte mágica ou um super herói na mão de qualquer criança. Com tudo isso, surgem algumas dúvidas: Brinquedos são realmente coisas de criança? Será que são, simplesmente porque algum adulto disse que era, provavelmente para vendê-los? Será alguém se preocupa realmente com as crianças? Será que alguém se preocupa com você na mesma intensidade em que você se preocupa com o seu trabalho?

É muito difícil enxergar a matrix e praticamente impossível sair dela, afinal, quanto mais cavocamos, mais camadas encontramos. O segredo é estar em eterna desconstrução e procurar evoluir o nosso pensamento através do simples exercício de nos perguntar porque fazemos o que fazemos e qual o impacto das nossas ações, por menor que seja, na vida dos outros. Já adianto que não é uma tarefa fácil, pois as vezes, quando parece que estamos prestes a encontrar uma saída, damos de cara com um enorme muro que, de longe, não podíamos enxergar. Mesmo encontrando algumas falhas na matrix, as vezes, o contraditório é inevitável e indispensável, pois sozinhos não temos força para mudar absolutamente nada e precisamos garantir a nossa sobrevivência. Se cada indivíduo, ao traçar seus objetivos e desejos, considerar o impacto de suas ações, mesmo que pequeno, o coletivo poderá garantir que nenhuma criança precise mais ter medo de largar seus brinquedos e crescer em segurança!








© 2020 Alexandre Otranto Esquitini.

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